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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014


BRIQUETES: FORMA ALTERNATIVA DE APROVEITAMENTO DA BIOMASSA RESIDUAL
 

José Ozildo dos Santos
Professor, mestrando
em Sistemas Agroindustriais - UFCG
 

A busca por novas fontes enérgicas se intensificou a partir da década de 1970, que também coincide com a eclosão dos movimentos ambientalistas, que levaram a Organização das Nações Unidas (ONU) a realizar a primeira Conferência Internacional Sobre o Meio Ambiente, sediada em Estocolmo, Suécia.
Foi durante a Conferência de Estocolmo que se enfatizou o conceito de desenvolvimento sustentável, mostrando-se a necessidade de se desenvolver também novas formas de energia, que levassem em consideração os princípios estabelecidos para a esse tipo de desenvolvimento.
Com o passar do tempo, as necessidades em relação ao desenvolvimento de formas alternativas de energia foram aumentado. E diante da escassez de combustíveis fósseis, as chamadas energias renováveis, vegetais e limpas, foram ganhando importância, fazendo com que a sociedade passasse a privilegiar mais o consumo sustentável. Essa preocupação em relação ao desenvolvimento e a utilização de formas alternativas de energia se intensificaram a partir da década de 1970.
Dentre as várias formas alternativas de energia, destacam-se os briquetes, que foram desenvolvidos nos Estados Unidos, pela indústria naval, em 1848. No entanto, na época, tal inovação não alcançou visibilidade, principalmente, devido à grande disponibilidade de lenha e de petróleo.
É importante também ressaltar que naquela época, ou seja, no final da primeira década do século XIX, não havia uma preocupação ambiental. Posteriormente, o elevado preço cobrado pelos combustíveis fósseis e o surgimento dos problemas ambientais, fizeram com que as chamadas matrizes energético-ambientais passassem a desfrutar de certa importância. E, dentre essas matrizes, ganhou destaque o briquete, por vários fatores, dentre os quais, a comodidade com o manuseio e a facilidade de transporte. 
Na produção dos briquetes, os resíduos da biomassa são triturados e num segundo momento, compactados, sob alta pressão, resultando em blocos que possuem melhor potencial de geração de calor (energia) quando comparados aos resíduos in natura.  Nesse processo de produção, tudo que é considerado biomassa residual pode ser aproveitado.
Nesse processo de produção, podem ser utilizado serragem e restos de serraria, casca de arroz, sabugo e palha de milho, palha e bagaço de cana-de-açúcar, casca de algodão, casca de café, soqueira de algodão, feno ou excesso de biomassa de gramíneas forrageiras, cascas de frutas, cascas e caroços de palmáceas, folhas e troncos das podas de árvores nas cidades, dentre outros.
Assim, na produção de briquetes, nada que é biomassa residual se perde: tudo é aproveitado. Tais resíduos são compactados gerando pequenos e médios cilindros com diâmetro superior a 50 mm, que possuem alto poder calorífero e que em diversos segmentos da indústria e do comércio, já vem sendo utilizados em substituição à lenha e ao carvão, contribuindo, assim, para a redução dos impactos ambientais.
No caso específico do Brasil, a produção de briquetes teve início em 1985, tendo sido o estado do Rio Grande do Sul o responsável pela venda dos primeiros briquetes no país. No início do processo de produção e comercialização desse biocombustível no Brasil, surgiram vários obstáculos, dentre os quais merecem destaques a ausência de promoção, a concorrência com a lenha e o carvão vegetal, a desuniformidade do produto, a necessidade de capital de giro, o alto preço do frete da matéria-prima e os impostos elevados.
Os desafios enfrentados pelos setores produtores de briquetes no Brasil foram resultantes, principalmente, pela falta de incentivo por parte do governo federal, que se traduz na falta de custeio e na inexistência de uma política tributária especifica. Além de enfrentarem a falta incentivos, que deveriam ser fornecidos pelo governo, os primeiros produtores de briquetes no país tinham dificuldades em venderem seus produtos, porque os mesmos possuíam preço elevados, reflexos da alta tributação e enfrentavam a forte concorrência que vinha daqueles que comercializavam lenha e carvão vegetal. 
Entretanto, com o tempo e com a adoção de práticas sustentáveis e do aumento pela busca por novas fontes alternativas de energia, o mercado se abriu para os briquetes no Brasil, o que levou ao desenvolvimento de inúmeras pesquisas sobre tal alternativa sustentável. Atualmente, produz-se briquetes a partir de bagaço de cana, casca de arroz, lenha comercial, resíduos de algodão, resíduos de eucalipto, resíduos de pinus e resíduos madeira de lei. A utilização de outros compostos está sendo estudada, objetivando a produção de briquetes, principalmente, utilizando-se a biomassa residual existente na região norte do país.
Atualmente, os briquetes possuem larga utilização não somente em unidades residenciais como também em estabelecimentos comerciais e na própria indústria, substituindo o gás natural e a lenha, produzindo calor e energia.
É importante registrar que as atividades agrícolas, florestais e industriais no Brasil geram uma grande quantidade de biomassa residual. Lamentavelmente, esse potencial ainda não vem sendo utilizado da maneira correta. Grande parte dessa biomassa residual é desperdiçada e com ela a energia que poderia ser produzida, deixando de auxiliar no processo de preservação do meio ambiente ou mesmo de contribuir para estruturação de um modelo energético, que leva em consideração os princípios aplicáveis à sustentabilidade ambiental.
Embora seja responsável pela produção de uma grande quantidade de biomassa residual, o Brasil somente utiliza uma pequena parcela desse material na produção de briquetes. Pouco mais de um milhão de toneladas de briquetes são produzidas por ano no país, utilizando-se, principalmente, resíduos agrícolas. Os resíduos de alimentos, provenientes da fabricação de alguns produtos, bem com pelo beneficiamento dos próprios alimentos, ainda não são utilizados também em grande escala na produção de briquetes, no Brasil.
Pode-se perceber que a falta de incentivos e de ações governamentais voltadas para a valorização da produção de briquetes no país, tem contribuído para que uma imensa quantidade de biomassa residual seja desperdiçada anual. A necessidade de se buscar formas alternativas de energia é uma realidade patente. Por outro lado, a sociedade precisa ser informada sobre o processo de desenvolvimento dessas novas alternativas e convocada para dar a sua contribuição, na esperança de que no futuro se tenha um mundo com melhores condições de vida, proporcionadas, principalmente, pela exploração racional e consciente dos recursos naturais, numa ótica sustentável.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

DISCURSO DO MÉTODO
(RESUMO)


Identificação da obra: DESCARTES, René. Discurso do método. Tradução: Ciro Mioranza. São Paulo: Escala, 2006.


Inexiste no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem.
Meu propósito não é ensinar aqui o método que cada qual deve seguir para bem conduzir sua razão, mas somente mostrar de que modo me esforcei por conduzir a minha. Nada direi a respeito da filosofia, exceto que, vendo que foi cultivada pelos mais elevados espíritos que viveram desde muitos séculos e que, apesar disso, nela ainda não se encontra uma única coisa a respeito da qual não haja discussão, e consequentemente que não seja duvidosa.
Após dedicar-me por alguns anos em estudar assim no livro do mundo, e em procurar adquirir alguma experiência, tomei um dia a decisão de estudar também a mim próprio e de empregar todas as forças de meu espírito na escolha dos caminhos que iria seguir [...] Acreditei com firmeza em que, por este meio, conseguiria conduzir minha vida muito melhor do que se a construísse apenas sobre velhos alicerces e me apoiasse tão somente sobre princípios a respeito dos quais me deixara convencer em minha juventude, sem ter nunca analisado se eram verdadeiros.
Em lugar do grande número de preceitos de que se compõe a lógica, achei que me seriam suficientes os quatro seguintes, uma vez que tornasse a firme e inalterável resolução de não deixar uma só vez de observá-los. O primeiro era o de nunca aceitar algo como verdadeiro que eu não conhecesse claramente como tal [...]. O segundo, o de repartir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias a fim de melhor solucioná-las. O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como galgando degraus, até o conhecimento dos mais compostos [...]. E o último, o de efetuar em toda parte relações metódicas tão completas e revisões tão gerais nas quais eu tivesse a certeza de nada omitir.
Depois, havendo percebido que, a fim de conhecê-las, ser-me-ia algumas vezes necessário considerá-las cada qual em particular, e outras vezes apenas de reter, ou de compreender, várias em conjunto, julguei que, para melhor considerá-las em particular, deveria presumi-las em linhas, visto que não encontraria nada mais simples, nem que pudesse representar mais diferentemente à minha imaginação e aos meus sentidos; mas que, para reter, ou compreender, várias em conjunto, era necessário que eu as designasse por alguns signos, os mais breves possíveis, e que, por esse meio, tomaria de empréstimo o melhor da análise geométrica e da álgebra, e corrigiria todos os defeitos de uma pela outra.
No entanto, o que mais me satisfazia nesse método era o fato de que, por ele, tinha certeza de usar em tudo minha razão, se não à perfeição, ao menos o melhor que eu pudesse.
Concebi para mim mesmo uma moral provisória, que consistia apenas em três ou quatro máximas que eu quero vos anunciar. A primeira era obedecer às leis e aos costumes de meu país, mantendo-me na religião na qual Deus me concedera a graça de ser instruído a partir da infância, e conduzindo-me, em tudo o mais, de acordo com as opiniões mais moderadas e as mais distantes do excesso, que fossem comumente aceitas pelos mais sensatos daqueles com os quais teria de conviver.  Minha segunda máxima consistia em ser o mais firme e decidido possível em minhas ações [...]. Minha terceira máxima era a de procurar sempre antes vencer a mim próprio do que ao destino, e de antes modificar os meus desejos do que a ordem do mundo [...]. Depois de haver-me assim assegurado destas máximas, e de tê-las separado, com as verdades da fé, que sempre foram as primeiras na minha crença, julguei que, quanto a todo o restante de minhas opiniões, podia livremente procurar desfazer-me delas.
Porém, logo em seguida, percebi que, ao mesmo tempo que eu queria pensar que tudo era falso, fazia-se necessário que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, ao notar que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considerá-la, sem escrúpulo algum, o primeiro princípio da filosofia que eu procurava.
Depois disso, considerei o que é necessário a uma proposição para ser verdadeira e correta; pois, já que encontrara uma que eu sabia ser exatamente assim, pensei que devia saber também em que consiste essa certeza. E, ao perceber que nada há no eu penso, logo existo, que me dê a certeza de que digo a verdade, salvo que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir, concluí que poderia tomar por regra geral que as coisas que concebemos muito clara e distintamente são todas verdadeiras, havendo somente alguma dificuldade em notar bem quais são as que concebemos distintamente.
Em princípio, aquilo mesmo que há pouco tomei como regra, ou seja, que as coisas que concebemos bastante evidente e distintamente são todas verdadeiras, não é correto a não ser porque Deus é ou existe, e é um ser perfeito, e porque tudo o que existe em nós se origina dele. De onde se conclui que as nossas ideias ou noções, por serem coisas reais e oriundas de Deus em tudo em que são evidentes e distintas, só podem por isso ser verdadeiras.
Atrevo-me a afirmar que não apenas encontrei modo de me satisfazer em pouco tempo no tocante a todas as mais importantes dificuldades que costumam ser enfrentadas na filosofia, mas também que percebi certas leis que Deus estabeleceu de tal modo na natureza, e das quais imprimiu tais noções em nossas almas que, após meditar bastante acerca delas, não poderíamos pôr em dúvida que não fossem exatamente observadas em tudo o que existe ou se faz no mundo. Em seguida, atentando para a sequência dessas leis, creio haver descoberto muitas verdades mais úteis e mais importantes do que tudo quanto aprendera até então, ou mesmo esperava aprender.
Em princípio, procurei encontrar os princípios, ou causas primeiras, de tudo quanto existe, ou pode existir, no mundo, sem nada considerar, para tal efeito, senão Deus, que o criou, nem tirá-las de outra parte, salvo de certas sementes de verdades que existem naturalmente em nossas almas. Em seguida, examinei quais são os primeiros e os mais comuns efeitos que se podem deduzir dessas causas [...]. Quero que se saiba que o pouco que aprendi até agora não é quase nada em comparação com o que ignoro, e que não desanimo de poder aprender [...].
Ademais, não pretendo falar aqui a respeito dos progressos que no futuro espero fazer nas ciências, nem me comprometer em relação ao público com qualquer promessa que eu não esteja seguro de cumprir: mas direi unicamente que decidi não empregar o tempo de vida que me resta em outra coisa que não seja tentar adquirir algum conhecimento da natureza [...]. 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

ARQUEOLOGIA E EDUCAÇÃO

José Ozildo dos Santos
Rosélia Maria de Sousa Santos

Embora seja uma ciência relativamente nova, quando comparada com outras, a Arqueologia vem vivendo uma nova era, oportunidade em que vários de seus conceitos estão sendo redefinidos.
Em várias partes do mundo, importantes acervos arqueológicos estão sendo destruídos numa escala alarmante, colocando em risco grande parte da história da humanidade que ainda não foi desvendada.
Esta situação mostra a necessidade urgente da adoção de medidas, que possam reduzir as ações inconscientes do homem, geralmente, praticadas em nome do desenvolvimento econômico.
Se por um lado os ambientalistas alertam que o planeta está sendo destruído, os arqueólogos encontram-se nessa mesma posição e denunciam a destruição de inúmeras áreas contendo sítios arqueológicos – verdadeiros patrimônios da humanidade.
Numa maior escala do que as depredações promovidas durante o século XIX pelos aventureiros europeus em busca de riquezas, no norte da África, mais precisamente no Egito, atualmente ocorre depredações em várias partes do globo, colocando a Arqueologia em sinal de alerta.
Mais do que nunca é necessário o desenvolvimento de ações voltadas para a conservação dos patrimônios arqueológicos espalhados pelo mundo inteiro. Diante das inúmeras perdas registradas nas últimas décadas, é necessário se enfrentar o problema de frente e cortar o mal pela raiz. Somente a educação como processo de construção e formação do cidadão consciente, pode constituir-se numa medida eficaz a esse problema.
No caso específico dos sítios arqueológicos existentes no interior da Paraíba, a falta de conservação é um problema que vem aumentando e exige uma solução imediata. Vários matações contendo pinturas e gravuras já foram [e estão sendo] reduzidos a simples blocos de paralelepípedos. As famosas Itacoatiaras do Ingá - consideradas o maior e mais completo conjunto de gravuras rupestres existente no solo brasileiro - estão desparecendo por falta de ações governamentais, que garantam sua preservação, bem como pelas ações irracionais de alguns pseudos turistas, que visitam aquele importante sítio arqueológico.
Trata-se de um problema antigo, denunciado no final da década de 1940 por José Anthero Pereira Júnior e atualmente sempre enfatizado pela Sociedade Paraibana de Arqueologia, através da mídia ou em seminários e congressos, realizados dentro e fora do território paraibano.

 CACHOEIRA DO ENCANTADO, BAHIA: depredação de um patrimônio ainda pouco conhecido e estudado

No início da década de 1980, pesquisadores norte-americanos denunciaram a destruição pela qual vinham passados os sítios arqueológicos dos Estados Unidos. O problema, que à época encontrava-se fora de controle, foi combatido através de um conjunto de ações públicas e privadas, associadas a publicações de várias leis estaduais, voltadas para a proteção de tais áreas.
Na época, estabeleceu-se que a proteção e a conservação dos sítios arqueológicos situados em terras federais eram da responsabilidade do governo federal dos Estados Unidos. E, graças às leis promulgadas naquele país, milhares de sítios arqueológicos estão protegidos.
No caso específico do Brasil, apesar do texto constitucional garantir a preservação dos sítios arqueológicos e considerá-los como patrimônios da União, a grande parte desses sítios está localizada em áreas aonde o próprio governo federal vem desenvolvendo ou custeando projetos, sem, contudo, avaliar os impactos que tais ações podem causar aos acervos arqueológicos locais.
Todas as formas de desenvolvimento produzem impactos sobre os sítios arqueológicos.
No Brasil, literalmente, nada existe para proteger as áreas consideradas de interesse para a Arqueologia e que se encontrem no caminho do chamado 'desenvolvimento'. E isto mostra a necessidade de um plano nacional de gestão arqueológica.
É de suma importância que nossos sítios arqueológicos sejam preservados e deles sejam afastadas as ameaças trazidas pelo desenvolvimento, salvaguardando, assim, grande parte da pré-história do homem brasileiro.
Enquanto que recursos financeiros não são direcionados para promover a proteção e a preservação dos sítios arqueológicos brasileiros, deve-se privilegiar a Educação Patrimonial em vários aspectos, tanto através da mídia como em sala de aula, e mais, tanto no campo como na cidade.
Os sítios arqueológicos devem ser sempre vistos como instrumentos de valor e de interesse público. No desenvolvimento de um projeto de Educação Patrimonial voltado para a proteção de nossos sítios arqueológicos, pode-se privilegiar a Arqueologia de Marketing, buscando-se, através de instituições, a exemplo da Sociedade Brasileira de Arqueologia e suas congêneres estaduais, recursos necessários ao desenvolvimento de tais ações educativas.
Ademais, da mesma forma que o discurso ambiental ganhou os diferentes espaços da sociedade, esforços sejam desenvolvidos para que o mesmo também ocorra em relação à proteção e à preservação de nossos sítios arqueológicos. No entanto, em ambos os casos, as ações têm que ir além dos discursos: É PRECISO CONSCIENTIZAR PARA PRESERVAR. E mais, a sociedade também precisa ser educada, conscientizando-se da importância que os sítios arqueológicos representam no processo de revelação do passado do homem e, que jamais tais espaços devem ser vistos como pedras no caminho do desenvolvimento.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O FUTURO DO TRABALHO, MUDANÇAS ORGANIZACIONAIS E AS NOVAS HABILIDADES GERENCIAIS

José Ozildo dos Santos
Rosélia Maria de Sousa Santos
Identificação do Texto:

SACOMANO NETO, Mário; NAKAMURA, Mauro Massahico; ESCRIVÃO FILHO, Edmundo. O futuro do trabalho, mudanças organizacionais e as novas habilidades gerenciais. 

1 DESENVOLVIMENTO

O trabalho ocupa um lugar central na vida das pessoas. Atualmente, vive-se na ‘sociedade do trabalho’, que começou a se projetar a partir do final do século XVIII com o desenvolvimento da Revolução Industrial.
Na apresentação de seu estudo, Sacomano Neto; Nakamura e Escrivão Filho mostram que as recentes transformações sociopolíticas e econômicas ocorridas no mundo, influenciam decisivamente o contexto do trabalho nas organizações.
Os referidos autores destacam que o trabalho tornou-se o princípio organizador fundamental das relações sociais. É através do trabalho que os indivíduos adquirem existência e identidade social pelo exercício de uma profissão.
Essa possibilidade fez com que a sociedade industrial se distinguir das demais formações sociais e definisse-se como uma sociedade de trabalhadores.
Os desenvolvimentos tecnológicos e a nova forma de organização do trabalho permitiram a passagem do sistema de produção artesanal para a produção em escala industrial, retirando parte do conhecimento e das decisões técnicas do controle da pessoa que efetivamente realiza o trabalho. Ocorreu, assim, a racionalização deste através da divisão de tarefas, provocando o surgimento do sistema de produção em massa.
Contudo, era preciso encontrar meios/formas de se eliminar os desperdícios na produção para conseguir um ganho em produtividade. E essa necessidade impôs ao trabalhador a 'ciência' do trabalho. Diante disto, surgiram as primeiras teorias organizacionais, figurando como idealizadores Taylor e Ford. Este último estendeu as inovações tayloristas e introduziu a linha de montagem.
Destacam Sacomano Neto; Nakamura e Escrivão Filho que com Ford a imposição do ritmo de trabalho deixou de ser um procedimento normativo e tornou-se uma subordinação mecânica. E que a racionalização da produção era ao ponto comum entre o modelo de organização do trabalho fordista e as ideias tayloristas.
Na primeira metade do século XX, os trabalhadores foram obrigados a se sujeitarem aos métodos estabelecidos pelos administradores responsáveis pela organização do trabalho. Assim, nascia um novo contexto produtivo. Para manter esse contexto foi necessário estabelecer um compromisso (que ficou conhecido como Compromisso Fordista), garantindo aos operários uma participação nos ganhos de produtividade resultantes da racionalização. 
Até a década de 1970, a forma de produção baseada no modelo fordista prevaleceu, caracterizando-se pelo aumento do poder aquisitivo dos assalariados. No entanto, uma aguda recessão econômica abalou esse quadro, assinalando o início de um processo de transição e reestruturação do processo produtivo, atingindo seu clímax na década seguinte, fazendo emergir um novo padrão industrial no cenário mundial.
De forma bem clara, Sacomano Neto; Nakamura e Escrivão Filho informam que o taylorismo e o fordismo cedeu lugar para novos processos produtivos, dentre os quais, destaca-se o toyotismo, fruto de uma experiência japonesa com a produção enxuta.
Nesse novo cenário, em contraposição à organização do trabalho taylorista/fordista, a fábrica transformou-se num organismo complexo, capaz de aprender e ajustar-se às necessidades oligopolistas de competir em qualidade e diferenciação do produto, exigindo um tipo de trabalhador, que valorize seu conhecimento técnico individual e que seja mais polivalente.
Num segundo momento, Sacomano Neto; Nakamura e Escrivão Filho abordam a visão tradicional do ambiente organizacional, afirmando que o surgimento do administrador profissional está ligado a passagem da pequena oficina artesanal para a grande fábrica mecanizada.
No entanto, a preocupação com os aspectos relacionados às estruturas organizacionais tem como ponto de partida os estudos do engenheiro Henry Fayol, que além de precursor deste movimento, acreditava que a busca da eficiência se dava com a estrutura formal da organização.
É oportuno destacar que as estruturas organizacionais, passaram por um processo de evolução, podendo ser classificadas em linear, funcional e organização de linha e assessoria. E, que cada um desses tipos possui suas funções bem definidas.
Utilizando-se dos estudos realizados por Hampton, os autores mostram que com o crescimento das organizações tornou-se inevitável a divisão de tarefas e responsabilidades. E que tal divisão contribui para uma administração eficiente, visto que proporciona benefícios potenciais.
De forma compromissada, Sacomano Neto; Nakamura e Escrivão Filho enumeram as vantagens da divisão do trabalho, como também as suas desvantagens, apontando a alienação do trabalhador como uma dessas desvantagens, acrescentando que para lidar com as consequências dessa divisão, é de suma importância o reconhecimento das habilidades gerenciais, tais como:
i. habilidades técnicas: se voltam para o manuseio de ‘coisas’ (processos ou objetos físicos);
ii. habilidades humanas: referem-se às pessoas trabalharem com outras;
iii. habilidades conceituais: constituem um ingrediente unificador e coordenador do processo administrativo.
Num terceiro momento, os autores abordam a nova visão do ambiente organizacional, mostrando que a tecnologia está alterando o trabalho, bem como o mercado de trabalho, trazendo consequências reducionistas para o nível de emprego no Brasil. Dito como outras palavras, as mudanças tecnológicas vem contribuindo para o aumento da taxa de desemprego. No entanto, deve-se reconhecer que essa contribuição é inferior àquela produzida pela mudança na estrutura organizacional das empresas.
Estudos citados por Sacomano Neto; Nakamura e Escrivão Filho mostram que a essas duas causas do desemprego, pode-se adicionar a política econômica do governo federal, que na década de 1990, estimulou as privatizações.
Esses autores concordam que não há unanimidade quanto as reais influências das causas do desemprego, diferentemente do que ocorre com as consequências, tidas como grande gravidade social.
Outro ponto trazido à discussão, diz respeito à dificuldade da inserção dos jovens no mercado de trabalho. No Brasil, pouquíssimas são as oportunidades de emprego, situação esta também enfrentada por outros países, a exemplo dos Estados Unidos. E, que, no caso específico do Brasil, a maioria dos postos de trabalho abertos está nas micros e pequenas empresas.
Reconhecem Sacomano Neto; Nakamura e Escrivão Filho que, no Brasil, existe a necessidade de se preparar para o emprego e que essa preparação deve começar na escola, evitando-se que os alunos sejam simplesmente preparados para memorizarem informações e não para aprendê-las.

2 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise do texto produzido por Sacomano Neto; Nakamura e Escrivão Filho, permite concluir que atualmente, exigi-se uma nova mudança comportamental. Para tanto, o trabalhador deve possuir habilitações de caráter geral para ser capaz de atuar com destaque nesse novo cenário em construção. Ele precisa saber tomar decisões, assumir riscos e ter opiniões próprias.
À semelhança do trabalhador, as organizações também foram forçadas a mudarem o seu perfil nesse novo milênio, objetivando se adequarem às transformações sociais, políticas e econômicas que atingiram a sociedade. Diferentemente do passado, a dinâmica do ambiente concorrencial exige repensar os seguintes aspectos: cultura organizacional, relações interpessoais, motivação, liderança e outros.
Em síntese, ocorreu o fim das chamadas relações duráveis entre empresa e empregado. Hoje, exige-se um novo projeto organizacional alinhado, capaz de facilitar a reestruturação das estruturas e dos processos organizacionais.
Na atualidade, deve-se reconhecer que as organizações não podem existir sem chefias e organizações informais. Por outro lado, a necessidade de se repensar as organizações, fez surgir novas alternativas estruturais em resposta à dinâmica do mercado concorrencial e aos movimentos da produção enxuta.
Criou-se, assim, novas formas de estruturas, a exemplo da horizontal, da virtual e da estrutura voltada para os clientes, além da estrutura em pizza. Ademais, a adoção desse novo modelo organizacional exige a observância de vários passos, cujo conhecimento é primordial para se obter o êxito esperado.  

sábado, 8 de dezembro de 2012

MEIO AMBIENTE - FICHAMENTOS

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: meio ambiente, saúde. Brasília: MEC/SEF, 1997.

Pág. 33
O uso da temática ambiental por muitos agentes e, em especial, pelos meios de comunicação, tem levado à formação de alguns preconceitos e à veiculação de algumas imagens distorcidas sobre as questões relativas ao meio ambiente. Às vezes essas distorções ocorrem por falta de conhecimento, o que se justifica diante da novidade da temática. Mas outras vezes são provocadas, propositadamente, para desmobilizar movimentos, para prejudicar a imagem dos princípios e valores ambientais.

Pág. 34
Atualmente grande parte dos ambientalistas concorda com a necessidade de se construir uma sociedade mais sustentável, socialmente justa e ecologicamente equilibrada. Isso significa que defender o meio ambiente, hoje, é preocupar-se com a melhoria das condições econômicas, especialmente dos que se encontram em situação de pobreza ou miséria, que é a grande maioria da população mundial, de acordo com dados da ONU.

Pág. 35
A opção pelo trabalho com o tema Meio Ambiente traz a necessidade de aquisição de conhecimento e informação por parte da escola para que se possa desenvolver um trabalho adequado junto dos alunos. Pela própria natureza da questão ambiental, a aquisição de informações sobre o tema é uma necessidade constante para todos. Isso não significa dizer que os professores deverão “saber tudo” para que possam desenvolver um trabalho junto dos alunos, mas sim que deverão se dispor a aprender sobre o assunto e, mais do que isso, transmitir aos seus alunos a noção de que o processo de construção e de produção do conhecimento é constante.

Pág. 51
O trabalho com o tema Meio Ambiente deve ser desenvolvido visando-se proporcionar aos alunos uma grande diversidade de experiências e ensinar-lhes formas de participação, para que possam ampliar a consciência sobre as questões relativas ao meio ambiente e assumir de forma independente e autônoma atitudes e valores voltados à sua proteção e melhoria.

Pág. 53
O desenvolvimento de uma proposta com o tema Meio Ambiente exige clareza sobre as prioridades a serem eleitas. Para tanto, é necessário levar em conta o contexto social, econômico, cultural e ambiental no qual se insere a escola. A realidade de uma escola em região metropolitana, por exemplo, implica exigências diferentes daquelas de uma escola da zona rural. Da mesma forma, escolas inseridas em ambientes mais saudáveis, sob o ponto de vista ambiental, ou em ambientes muito poluídos deverão eleger objetivos e conteúdos que permitam abordar esses diferentes aspectos. Também os elementos da cultura local, sua história e seus costumes irão determinar diferenças no trabalho com o tema Meio Ambiente em cada escola.

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FIGUEIREDO, Paulo Jorge Moraes. Sustentabilidade ambiental: aspectos conceituais e questões controversas. In: Ciclo de palestras sobre meio ambiente. Brasília: MEC/SEF, 2001, p. 27-31.

Pág. 27
O debate ambiental da atualidade tem como elemento central a evidência de que a dinâmica imposta pelo homem no planeta não se sustenta a longo prazo e, em decorrência, há de se buscar modelos de sociedade compatíveis com os limites ambientais.

Pág. 28
No âmbito da civilização humana, as sociedades contemporâneas têm sido amiúde ignorantes ou negligentes acerca das irreversibilidades ambientais decorrentes de suas ações. A intensa utilização de elementos não-renováveis e a contínua e generalizada degradação ambiental evidenciam essa característica. Tendo na economia seu valor maior, as sociedades contemporâneas desconhecem os conceitos de entropia e de irreversibilidade.

Pág. 31
O debate ambiental estabelecido no Brasil e em outros países destaca as influências ambientais associadas ao estilo de vida das nações ricas e questiona quão realista é a proposta de outras nações de todas as nações adotarem os modelos de desenvolvimento das nações ricas, tomando como referência seus padrões de qualidade de vida, seus valores sociais e suas dinâmicas.

Pág. 33
Atualmente [...] a economia representa um papel de destaque nas relações entre os povos. Considerando que o capital, além de flexível, tem grande mobilidade nas relações em um mercado aberto, o tradicional nacionalismo precisa ser repensado, mesmo porque o conceito de riqueza nacional a ser protegida dentro das fronteiras dos países já não é o mesmo de décadas anteriores.

Pág. 35
A questão central do debate ambiental de nossos dias está relacionada à velocidade e à intensidade das transformações do ambiente natural impostas pela dinâmica das sociedades contemporâneas, incompatível com a manutenção ou a reprodução da capacidade de suporte global, o que por sua vez implica a redução das possibilidades das futuras gerações. Assim, importa não apenas a intensidade dos efeitos predatórios que promovem a contínua extinção das espécies, mas também a rapidez das transformações impostas pela atual racionalidade econômica que torna impossível qualquer adaptação e evolução gradual das espécies.

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PADUA, Suzana Machado Padua. A Educação Ambiental: um caminho possível para mudanças. In: BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Panorama da educação ambiental no ensino fundamental. Brasília: MEC/ SEF, 2001, p. 77-81

Pág. 77-78
A Educação Ambiental surgiu em grande parte como uma resposta à crise na educação. Já que os problemas socioambientais só aumentam, algo há de errado no processo de formação de cidadãos atuantes. Como educar para que cada um dê um pouco de si em prol de uma causa maior? Como formar cidadãos pensantes e atuantes? Como educar para se ter coragem de dar um basta a processos que destroem a natureza e aumentam a desigualdade entre os seres humanos?

Pág. 78
[...] a Educação Ambiental deve desenvolver um cidadão consciente do ambiente total, preocupado com os problemas associados a esse ambiente e que tenha conhecimento, atitudes, motivações, envolvimento e habilidades para trabalhar individual e coletivamente para resolver problemas atuais e prevenir os futuros [...].

Pág. 79
[...] Não basta transmitir teorias, pregar conceitos e fornecer materiais. O educador ambiental precisa ser também sensibilizado. Precisa crer em seu próprio poder e em sua capacidade de ousar. Precisa acreditar que os processos são muitas vezes mais importantes do que os produtos finais; que errar é importante no caminho do aprendizado. Dessa forma, os insucessos passam a fazer parte dos processos e não são mais motivo de vergonha ou de sentimentos de fracasso.

Pág. 79
Na capacitação de professores na área da Educação Ambiental de maneira ideal deve incluir quatro componentes básicos: 1) fundamentos ecológicos, que ajudem na compreensão, no conhecimento e na prevenção das conseqüências de ações que impactam o meio ambiente e a busca de soluções, assim como formas didáticas de transmitir esses princípios; 2) consciência ecológica, que permita aos professores preparar materiais didáticos ou adotar currículos que ajudem o aprendiz a compreender como as características culturais do ser humano afetam o ambiente e sua perspectiva ecológica  como os papéis desempenhados por diferentes indivíduos e seus valores influenciam as decisões, daí a importância de formar cidadãos responsáveis na solução de problemas ambientais; 3) investigação e avaliação, que ajudem a analisar os problemas ambientais e possíveis soluções, além de meios de se incorporar valores condizentes com os novos conhecimentos; 4) capacitação em ações ambientais que incluam não somente a adoção de posicionamentos que estejam em equilíbrio com a melhoria da qualidade de vida e do meio ambiente, mas que proporcionem meios para que esses princípios possam ser transmitidos.

Pág. 80
Ao compartilhar com os alunos as etapas do processo, o educador passa a ser um facilitador que os incentiva a partilhar suas experiências, que lhes ofereça meios de despertar o interesse por assuntos socioambientais e que transmita a noção de que todos podem e devem dar uma contribuição, estimulando ações e comportamentos éticos. A responsabilidade do professor é de fato imensa [...].

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QUINTAS, José Silva. Educação ambiental e cidadania: uma construção necessária. In: Ciclo de palestras sobre meio ambiente.  Brasília: MEC/SEF, 2001, p. 41-46.

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No que se refere à prática da educação ambiental no Brasil, duas tarefas fundamentais, inadiáveis e simultâneas colocam-se diante do poder público e da sociedade brasileira.  A primeira diz respeito ao direcionamento da abordagem da dimensão ambiental, na esfera da educação formal, enquanto a segunda deve voltar-se à recuperação do passivo cognitivo junto à maioria da população brasileira, por meio de sua participação no processo de gestão ambiental.

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A questão do lixo, por exemplo, pode ser trabalhada em programas de educação ambiental desde a perspectiva do Lixo que não é lixo, em que o eixo central de abordagem está na contestação do consumismo e do desperdício, com ênfase na ação individual por meio dos três R (reduzir, reutilizar e reciclar), até aquela que toma essa problemática como conseqüência de um determinado tipo de relação sociedade - natureza, histórica e socialmente construída, analisa desde as causas da sua existência até a destinação final do resíduo e, ainda, busca a construção coletiva de modos de compreendê-la e superá-la.

Pág. 44
O esforço da educação ambiental deveria ser direcionado para a compreensão e a busca de superação das causas estruturais dos problemas ambientais por meio da ação coletiva e organizada. Segundo essa percepção, a leitura da problemática ambiental realiza-se sob a ótica da complexidade do meio social, e o processo educativo deve pautar-se por uma postura dialógica, problematizadora, comprometida com transformações estruturais da sociedade e de cunho emancipatório. Aqui se acredita que ao participar do processo coletivo de transformação da sociedade a pessoa também se estará transformando.

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[...] a gestão ambiental é um processo de mediação de interesses e conflitos entre atores sociais que agem sobre os meios físico-natural e construído. Esse processo de mediação define e redefine, continuamente, o modo como os diferentes atores sociais, por meio de suas práticas, alteram a qualidade do meio ambiente e também como se distribuem os custos e os benefícios decorrentes da ação desses agentes.

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Uma proposta de educação ambiental dialógica e transformadora pressupõe  escolhas. Ao negar a neutralidade da gestão ambiental e ao afirmar o caráter intrinsecamente conflituoso da sua prática, essa concepção só deixa uma alternativa ao educador: a de comprometer-se com aqueles segmentos da sociedade brasileira que, na disputa pelo controle dos bens ambientais do país, são sempre excluídos dos processos decisórios e ficam com o maior ônus. O compromisso e a competência do educador são requisitos indispensáveis para se passar do discurso à ação.

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JACOBI, Pedro. Educação ambiental e o desafio da sustentabilidade socioambiental. O Mundo da Saúde, v. 30, n. 4, p. 524-531, São Paulo, out/dez, 2006.

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A problemática da sustentabilidade assume um papel central na reflexão em torno das dimensões sócio-econômicas e ambientais do desenvolvimento e das alternativas que se configuram [...].

O quadro sócio-ambiental que caracteriza as sociedades contemporâneas revela que a relação estabelecida entre os  humanos e o meio ambiente está causando impactos cada vez mais complexos, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos, nas condições de vida das populações e na capacidade de suporte planetária com vistas a garantir a qualidade de vida das futuras gerações.

O conceito de desenvolvimento sustentável surge no contexto do enfrentamento da crise ambiental, configurada na degradação sistemática de recursos naturais e nos impactos negativos desta degradação sobre a saúde humana.

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O desenvolvimento sustentável não se refere especificamente a um problema limitado de adequações ecológicas de um processo social, mas a uma estratégia ou modelo múltiplo para a sociedade, que deve levar em conta tanto uma viabilidade econômica quanto ambiental.

O desenvolvimento sustentável somente pode ser entendido como um processo onde, de um lado, as restrições mais relevantes estão relacionadas com a exploração dos recursos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e o marco institucional.

Os anos noventa marcam mudanças significativas no debate internacional sobre os problemas ambientais. A atenção do planeta para a crise ambiental, que se inicia em Estocolmo em 1972, atinge seu clímax no Rio de Janeiro, em 1992, quando são lançadas as bases para uma nova concepção de desenvolvimento [...].

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O caminho para uma sociedade sustentável se fortalece na medida em que se desenvolvam práticas educativas que pautadas pelo paradigma da complexidade, aportem para a escola e os ambientes pedagógicos, uma atitude reflexiva em torno da problemática ambiental, e os efeitos gerados por uma sociedade cada vez mais pragmática e utilitarista, visando traduzir o conceito de ambiente e o pensamento da complexidade na formação de novas mentalidades, conhecimentos e comportamentos.

As práticas educativas devem apontar para propostas pedagógicas centradas na conscientização, mudança de comportamento e atitudes, desenvolvimento de competências, capacidade de avaliação e participação dos educandos [...].
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[...] Atualmente o desafio de fortalecer uma educação para a cidadania ambiental convergente e multirreferencial se coloca como prioridade para viabilizar uma prática educativa que articule de forma incisiva a necessidade de se enfrentar concomitantemente a crise ambiental e os problemas sociais [...].
GÊNEROS LITERÁRIOS


ARAGÃO, Maria Lúcia. Gêneros literários. In: SAMUEL, Roger (org.). Manual de teoria literária. Petrópolis: Vozes, 2001.

FICHAMENTO

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O que se entende por gêneros literários pode ser resumido, se levarmos em conta a própria etimologia do vocábulo "gênero", oriundo do latim genus,-eris, que significa tempo de nascimento, origem, classe, espécie, geração. Deste modo, toda obra literária se origina de uma determinada época e de uma determinada cultu­ra, isto é, é gerada num certo tempo e num certo espaço, filian­do-se a uma determinada classe ou espécie ou inaugurando um novo horizonte através de um conjunto próprio de regras.

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É de capital importância frisar que a obra literária, sendo um organismo formado de múltiplos aspectos, onde se articulam ele­mentos morfológicos, sintáticos, semânticos, imagísticos, simbó­licos, fônicos, rítmicos etc., articulados a outros aspectos particu­lares aos gêneros dos quais participa mais intimamente, não pode ser reduzida a um mero catálogo de regras apriorísticas.

Página 55
Que o estudo dos gêneros literários sirva de meio para se chegar à compreensão global da obra, mas não de princípio básico norteador de um conhecimento que se queira mais totalizante.

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Nos livros III e X da República, Platão se refere aos gêneros literários, estabelecendo então as três categorias: poesia épica, poe­sia dramática e poesia lírica. [...] A poesia dramática, por ele chamada de mimética, era a que imitava os ho­mens em ação. A poesia lírica, que não imitava os homens em ação, caracterizando-se mais por seu aspecto subjetivo, era não-mimética. A poesia épica era a que participava dos dois procedimentos anteriores, sendo, portanto, um tipo de poesia mista (utilizava tanto o diálogo direto quanto a narração).

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O conceito de gêneros literários encontrou em Aristóteles, fi­lósofo grego que viveu no IV século aC (384 aC a 322 aC), um vasto campo de reflexão. Sua doutrina permanece ainda atual, devido à grande sensibilidade e ao espírito científico com que marcou a sua Poética, obra dedicada principalmente ao estudo da tragédia e da epopéia. Realizando profundas investigações no campo da estética, da retórica e da poética, reconheceu a existên­cia de três gêneros fundamentais ou de três formas essenciais em que pode se apresentar o fenômeno poético: o gênero épico, o líri­co e o dramático.

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O Renascimento recuperou os preceitos já conhecidos das poéticas aristotélica e horaciana. Segundo os críticos da época, a poesia, para atingir o grau de universalidade, deveria ser realizada segundo modelos prefixados pelos tratados ou artes poéticas até então difundidos. O conceito de imitação aristotélico foi levado às últimas conseqüências, interpretado como cópia da realidade e não como recriação. No caso específico dos gêneros, concebe­ram-nos como cópias fiéis dos modelos greco-romanos.
[...] A lírica não encontrou no neoclassicismo um campo propício ao seu desenvolvimento porque, nesta época, a razão e o bom sen­so deveriam predominar sobre a emoção.

Página 59
O grande codificador das idéias relativas à arte poética, neste período, foi Boileau que, inspirado na filosofia racionalista então vigente, irá relacionar o bom senso e a razão aos aspectos nobres e elevados que deveriam nortear a poesia.
[...] A partir da segunda metade do século XIX, o positivismo e o naturalismo, juntamente com as teorias evolucionistas de Spencer e Darwin, irão influenciar toda a cultura européia. Destacamos o crítico Brunetière (1849-1906), que tentará reabilitar o conceito dos gêneros, comparando-os a organismos vivos, com nascimen­to, crescimento, morte ou transformação. Nesta concepção, os gê­neros, assim como os homens e a história, estavam sujeitos às leis da evolução natural da espécie.

Página 60
Os gêneros são instituições que exercem certa pressão sobre o escritor, assim como também são por ele modificados. Essas convenções estéticas, por assim dizer, servem para ordenar e classificar as obras, tomando-as mais aptas a serem apreendidas pelos leitores.

Página 61.
A palavra "lírica" deriva do grego lyrikós, que significa algo que concerne à lira, ou o som proveniente da lira, instrumento mu­sical primitivo, com quatro cordas.

Página 62
A lírica está associada à livre imaginação, onde a emoção supera o pensa­mento, daí o gênero ser essencialmente polimorfo. Destacamos, nesta época, duas inspirações claramente distintas: uma pessoal, onde o poeta faz expressamente de si mesmo, de seus sentimentos e de suas idéias a matéria de seus cantos, e outra geral, impessoal, na medida em que o poeta fala em nome de todos, dando uma voz comum à alma da multidão.
[...]. O estilo lírico com o decorrer dos tempos foi desenvolvendo novas formas, entre as quais destacamos a égloga latina, o idílio a balada, o soneto etc.

Página 63
A lírica moderna se caracteriza por uma grande liberdade formal e para entendermos em toda a sua profundidade o fenômeno lírico como um todo, é necessário que apreendamos a essência do estilo, as suas marcas e a pluralidade de suas manifestações.

Página 64
A poesia lírica renuncia à coerência gramatical, lógica e for­mal, pois necessita se libertar para poder ser mais autenticamente momentânea.

Página 65
O épico se caracteriza primordialmente por ser um estilo nar­rativo, através do qual o poeta narra, descreve e exalta fatos histó­ricos e personagens heróicos. É o estilo mais próprio para traduzir os sentimentos coletivos, a grandiosidade dos cenários, dos heróis, dos combates e dos sentimentos.

Página 66
O narrador épico se caracteriza fundamentalmente pelo seu afastamento em relação ao assunto narrado. Ele se coloca como um simples observador que não altera o seu ânimo diante do fato narrado.

Página 67
A chave para o entendimento do texto épico deve ser buscada, nas divagações, nas narrações detalhadas e prolixas. A diferença entre a epopéia e as outras fonl1as narrativas talvez esteja no prazer que o poeta épico quer despertar no ouvinte ou leitor pelo deta­lhe. Daí o fim da poesia ficar diluído em suas partes, através do recurso à antecipação.

Pág. 68
Drama significa, etimologicamente, ação. Consideramos, pois, obras dramáticas, aquelas em que a história (a fábula, o mito) ou os caracteres e as emoções são imitados não através do discurso de um narrador (como é o caso do épico); mas sim através de personagens em ação.

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O herói trágico, pois, é aquele que, acreditando em suas idéias e vivendo coerentemente a partir delas, sem duvidar de sua vali­dez, vê-se inesperadamente diante do inevitável destino, que lhe impõe as suas normas próprias e as suas vontades, incompatíveis com a sua visão de mundo e idealização.

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A tragédia configura o choque entre o caráter do herói e o seu destino. A ironia trágica seria exatamente a oscilação entre estas duas tábuas de valores, a impossibilidade de se poder optar por uma em particular.

Página 73
Como formas dramáticas cômicas, podemos destacar a farsa, um tipo de peça teatral surgida no século XIV, em geral curta, com poucas personagens, que pretende provocar o riso a partir de situa­ções cômicas e ridículas da vida quotidiana.

Página 74
Geralmente o conto é definido como sendo uma forma narrati­va em prosa, de pequena extensão. É claro que não podemos reco­nhecer um conto só a partir do número de páginas em que se en­quadra uma história. Por ser um tipo de narrativa voltada para ob­jetivos bem determinados, a sua forma acompanhará o conjunto dos elementos específicos a esse tipo de narrativa.

Página 75
O conto tradicional absorveu grande parte do folclore de todos os povos, notadamente o conto de fadas e a fábula, que podemos considerar como sendo um tipo de conto com objetivo nitidamente didático. A fonte mais rica de enredos de contos populares foi ofe­recida pelo Oriente.
[...]. O romance é a mais importante forma de gênero narrativo em prosa, surgida até agora.

Página 77
O romance pode ser definido como sendo o desenrolar de uma história, constituída por um complexo de acontecimentos ou de paixões desenrolados no tempo, confrontando personagens imaginárias, mas em que a aparência de vida é a tal ponto impe­riosa, que somos levados a refletir sobre os acontecimentos como se fossem reais [...].
O romance é formado de personagens, que podem ser homens ou coisas, fatos, desejos, animais, idéias etc. Na verdade o artista pode atribuir personificação a qualquer elemento concreto ou abs­trato dentro dos limites da narrativa. Esses personagens atuam dentro de uma medida temporal e espacial determinada.