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terça-feira, 17 de março de 2015

A NECESSIDADE DE UMA NOVA CONSCIENTIZAÇÃO AMBIENTAL: A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO PRÁTICA


Rosélia Maria de Sousa dos Santos
Mestranda em Sistemas Agroindustriais (UFCG)
José Ozildo dos Santos
Mestrando em Sistemas Agroindustriais (UFCG)
Dilermando Simões Dantas
Médico veterinário, mestre em Zootecnia (UFCG),
Almair de Albuquerque Fernandes
Mestre em Sistemas Agroindustriais (UFCG)
Marcos Antônio Duvirgens Gomes
Aluno do Curso de Gestão Pública (UNINTER)
 
Resumo: Trata-se de um artigo de revisão que tem por objetivo mostrar a necessidade de uma nova conscientização ambiental. E, que esse objetivo pode ser atingido através da educação ambiental como prática. No mundo atual, caracterizado pelo processo de globalização, no qual, praticamente não existe outra preocupação há não ser aquela de natureza econômica, o homem vem explorando de forma excessiva os recursos naturais, colocando em risco a sua própria espécie. Na atualidade, mais do que nunca, é preciso que o homem e a sociedade como um todo, adquira uma conscientização ecológica, firmando no princípio de que é preciso preservar a natureza para que a vida na terra continue existindo. Através da Educação Ambiental (EA) é possível compreender melhor as interrelações entre o homem e o ambiente. Com ela é possível não somente conscientizar, mas mostrar o ser humano a sua responsabilidade para com a natureza e dimensionar o tamanho do dano já causado pelo homem o maio ambiente. Para tanto, a escola, em sua proposta pedagógica deve priorizar questões atuais, a exemplo da problemática do meio ambiente, possibilitando que seus alunos tenham as melhores informações sobre o referido tema e adquiriram os conhecimentos necessários para das discussões em sociedade, que o referido tema requer. A educação ambiental trata de uma mudança de paradigma que implica tanto uma revolução científica quanto política. A educação ambiental, não somente pode educar para a cidadania, como também pode contribuir para a coletividade consciente de seu papel como responsável pela preservação do mundo que habita.
 
Palavras-chaves: Conscientização Ambiental. Papel da Escola. Cidadania.
 
 
1 Introdução
 
      No mundo atual, caracterizado pelo processo de globalização, no qual, praticamente não existe outra preocupação há não ser aquela de natureza econômica, o homem vem explorando de forma excessiva os recursos naturais, colocando em risco a sua própria espécie.
Na atualidade, mais do que nunca, é preciso que o homem e a sociedade como um todo, adquira uma conscientização ecológica, firmando no princípio de que é preciso preservar a natureza para que a vida na terra continue existindo.
Entretanto, deve-se registrar que a preocupação com a depredação do Meio Ambiente natural é insuficiente se esta não estiver intimamente ligada à mudança de posturas e a novas formas de desenvolvimento, em relação à produção de suas necessidades e de sua relação com os homens.
Assim, diante da complexidade das questões ambientais, dos atuais estilos de vida inseridos no processo de globalização, é patente a necessidade de uma abordagem interdisciplinar para se trabalhar a Educação Ambiental.
O presente estudo, no qual adotou-se como procedimento metodológico a pesquisa bibliográfico, tem por objetivo mostrar a necessidade de uma nova conscientização ambiental. E, que esse objetivo pode ser atingido através da educação ambiental como prática. 

2 Revisão de Literatura
2.1 A necessidade de uma nova conscientização ambiental

No contexto atual, é necessário que o homem tenha uma consciência ecológica sólida e entenda que a melhor maneira de se explorar o meio ambiente é buscando uma harmonia entre este e o desenvolvimento. Assim sendo, é preciso que o homem atual seja consciente de que pode, de forma racional, utilizar-se dos recursos naturais, sem, contudo, destruir a natureza.
Explica Guimarães (2001) que:

A ausência de uma consciência holística e, portanto, ecologicamente equilibrada vem transformando a face do planeta neste último decênio num verdadeiro caldeirão de contradições que ao um só tempo, põem por terra a pretensa racionalidade do homem na escala evolutiva animal. O aquecimento global, os terremotos, furacões e ciclones, o aumento da desertificação, o assoreamentos dos rios, o desmatamento, a poluição nos seus mais diversos aspectos, a fome, a extinção de espécies animais, a falta de água doce entre outros acontecimentos diretamente ligados à devastação indiscriminada da natureza, não são assuntos estranhos para a humanidade, uma vez que vários alertas foram feitos por meio da comunidade científica e ambientalista de várias partes do mundo; o que falta em essência é o despertar da consciência crítica e coletiva dos povos, em relação à perspectiva de futuro da espécie hoje seriamente ameaçada pelo desejo alucinado do lucro imediato.

Na atualidade, nota-se que o homem tem caminhado para a consciência da necessidade de uma exploração racional no interesse da sua própria economia. Os planos de desenvolvimento econômico de muitos países já conciliam as trans­formações inevitáveis dos meios naturais com a conservação ambiental, configurando-se o que frequentemente é chamado de desenvolvimento.

2.2 O surgimento da educação ambiental
 
No mundo atual, os temas ambientais estão presentes nas manchetes de jornais, nos programas de televisão, artigos de revistas, em palestras, congressos, campanhas populares, marketing de empresas e planos de governo. Isso demonstra que o debate sobre os problemas ambientais e a necessidade de encontrar soluções para os mesmos, torna-se cada vez mais urgente na sociedade contemporânea (FIGUEIREDO, 2004).
Os problemas ambientais atingem os interesses e as necessidades das pessoas, independente da profissão e classe social, sensibilizando-as a tomarem consciência de que tais problemas vão se somando e agravando à proporção, que o progresso avança.
De acordo com Souza (2001):
 

[...] essas questões passaram a ter importância somente quando, de um lado, a ameaça de risco à segurança e à qualidade de vida atingiu as classes médias e, de outro, quando se passaram a contabilizar as perdas nas esferas de produção provocadas pela sua não preservação e pelos imensos custos provocados pelo colapso ambiental.
 
As soluções para os problemas ambientais somente serão possíveis se houver envolvimento e participação de toda a sociedade juntamente com o apoio de políticas públicas condizentes, pois tais problemas não podem ser resolvidos individualmente, nem por movimentos isolados das comunidades.
Por isso, Souza (2001) afirma que: 

O ‘meio socioeconômico’ deve ser, de alguma forma, um aspecto central das discussões ambientais, pois o que está em jogo não é simplesmente a preservação, mas sim como os homens, de forma individual ou em grupos, ao apropriarem-se da natureza para satisfazerem as suas necessidades, estabelecem formas diversas de conflitos expressos na segregação dos benefícios que o bem-estar deveria lhes proporcionar. 

Nesse sentido, cabe ao homem atual conscientizar-se de que ele é parte do próprio meio, de tal forma que se ele continuar explorando de forma excessiva os recursos naturais, sem uma preocupação em preservar o meio ambiente, no futuro, até ele próprio estará entre as espécies em extinção.
Dissertando com a necessidade de uma consciência ecológica, Viola (1987) afirma que “o comportamento predatório não é novo na história humana, não se restringe nem ao fim do século XX e nem aos últimos dois séculos de industrialização, o que é novo é a escala dos instrumentos de predação, cujo símbolo máximo é as armas nucleares”.
Entretanto, foi somente após sentir na pele os efeitos da contaminação ambiental, causada por diversos fatores, que os seres humanos começaram a adquirir a autoconsciência das possibilidades de destruição do planeta. E, com esse despertar, lançou-se as sementes da Educação Ambiental, tão necessária na atualidade.
 

2.3 Conceituando educação ambiental (EA)
 

Atualmente, a Educação Ambiental é um tema bastante discutido tanto no meio acadêmico como em diversos segmentos da sociedade organizada, existindo, portanto, várias definições sobre a mesma. No entanto, todas, de forma direta ou indireta, apresentam a necessidade de formar no aluno uma consciência quanto à importância da preservação do meio ambiente.
De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997): 

Entende-se por educação ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade. 

A Educação Ambiental é uma forma abrangente de educação, que através de um processo pedagógico participativo permanente, procura incutir no educando e na sociedade, de forma geral, uma consciência crítica sobre a problemática ambiental, despertando esses segmentos quanto à necessidade de se promover a preservação da natureza.
De acordo com Figueiredo (2004): 

A educação ambiental é um processo que visa formar uma população mundial consciente e preocupada com o ambiente e com os problemas que lhe dizem respeito, uma população que tenha os conhecimentos, as competências, o estado de espírito, as motivações e o sentido de participação e engajamento que lhe permitam trabalhar individual e coletivamente para resolver os problemas atuais e impedir que se repitam. 

No âmbito educacional, a educação ambiental deverá ser trabalhada na escola como processo educacional em todas as instâncias de formação e disciplinas do currículo, integrando-se ao processo educacional como um tema transversal, conforme expressam os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997).
No âmbito social, ela deve ser abordada através de campanhas de esclarecimentos, veiculadas através dos mais variados meios de comunicação, mostrando à população a necessidade de preservar a natureza como um todo (FIGUEIREDO, 2004).
A Educação Ambiental possibilita a construção do conhecimento, proporcionando ao ser humano uma compreensão crítica global do ambiente, sendo, portanto, uma das alternativas de transformação de paradigmas com a construção de uma consciência coletiva volta para a preservação do meio ambiente. 
Nesse mesmo sentido, destaca Leff (2002) que:  

A educação ambiental se fundamenta em dois princípios básicos: uma nova ética que orienta os valores e comportamentos para os objetivos de sustentabilidade ecológica e a equidade social; uma nova concepção do mundo como sistemas complexos, a reconstituição do conhecimento e o diálogo de saberes. 

A Educação Ambiental traz para o ser humano uma nova ética ao mesmo tempo em que mostra a necessidade de uma conscientização coletiva, pautada num princípio que mostra que todo ser humano possui sua responsabilidade a cumprir para com o meio ambiente. Na opinião de Quintas (2001), à educação ambiental cabe: 

[...] principalmente, promover a mudança de comportamento do sujeito em sua relação cotidiana e individualizada com o meio ambiente e os recursos naturais, objetivando a formação de hábitos ambientalmente responsáveis no meio social. Essa abordagem evidencia uma leitura acrítica e ingênua da problemática ambiental e aponta para uma prática pedagógica prescritiva e reprodutiva. Assim, a transformação da sociedade seria o resultado da transformação individual dos seus integrantes. 

Diante disso, entende-se que é necessário efetivar a Educação Ambiental no processo educativo, objetivando formar cidadãos conscientes, capazes de decidirem e atuarem na realidade socioambiental de uma forma mais comprometida com a vida e o bem-estar de todos.
Contudo, esse processo de efetivação da ED deve envolver a sociedade como um todo, cuja conscientização da necessidade de preservação do meio ambiente sob todos os aspectos deve ser incentivada e promovida através de todos os segmentos da mídia. Tal missão, não é apenas uma tarefa dos organismos de governo, deve ser um compromisso de todos os segmentos da sociedade organizada, organizações não governamentais, conselhos de preservação do meio, etc. 

2.4 O caráter interdisciplinar da educação ambiental 

É consenso entre os teóricos, que o ensino apresenta melhores resultados, quando, de forma geral, trabalha-se em sala de aula a interdisciplinaridade. Embora não sendo conteúdo específico de sua disciplina, o professor pode e deve trabalhar a Educação Ambiental em sala de aula. Se assim fizer, estará dando uma excelente contribuição ao ensino aprendizagem, possibilitando aos seus alunos os conhecimentos necessários para que os mesmos possam entender melhor o mundo que existe em sua volta. 
Em seu contexto, a Educação Ambiental encontra-se vinculada a diversos valores tais como: cooperação, solidariedade, respeito mútuo, responsabilidade individual e coletiva, participação, comprometimento e coletividade (QUINTAS, 2001).
Independentemente da disciplina, temas com Educação Ambiental, Orientação Sexual, Cidadania e Ética, devem ocupar espaços privilegiados nas salas de aula, tanto no ensino fundamental como no ensino médio.
Nesse sentido, deve-se lembrar que a opção pelo trabalho com o tema meio ambiente traz a necessidade de aquisição de conhecimento e informação por parte da escola para que se possa desenvolver um trabalho adequado junto aos alunos.
De acordo com Medina e Santos (1999): 

A EA não consiste simplesmente em dar um trato mais adequado às questões ambientais que já estão presentes (muitas vezes de maneira mais implícita que explícita) nos conteúdos curriculares de várias disciplinas, ou introduzir componentes ambientais a certas disciplinas, dando prioridade às ciências naturais e em particular à ecologia ou à geografia como campos interdisciplinares por natureza... se trata de construir um saber ambiental que se defina em relação a cada uma das disciplinas já constituídas, através de um processo social de produção do conhecimento 

Diante desta constatação, percebe-se a Educação Ambiental possui um caráter interdisciplinar. Desse modo, sua efetivação proporciona uma maior contribuição ao processo de compreensão dos problemas ambientais, sob seus diferentes pontos de vista. Nesse sentido, reconhecer o caráter interdisciplinar da educação ambiental é aproximar-se dos valores e da complexidade do real.
Através da Educação Ambiental (EA) é possível compreender melhor as inter-relações entre o homem e o ambiente. Pois, através dela é possível não somente conscientizar, mas mostrar o ser humano a sua responsabilidade para com a natureza e dimensionar o tamanho do dano já causado pelo homem o maio ambiente.
Para tanto, a escola, em sua proposta pedagógica deve priorizar questões atuais, a exemplo da problemática do meio ambiente, possibilitando que seus alunos tenham as melhores informações sobre o referido tema e adquiriram os conhecimentos necessários para das discussões em sociedade, que o referido tema requer. 

2.6 Educação ambiental no contexto atual 

Na atualidade, o homem possui um grande desafio de criar uma sociedade ambientalmente sustentável, garantindo às gerações futuras o direito a uma existência segura. Noutras palavras, é preciso mudar a realidade atual, pautada pela degradação ambiental, pelo risco de colapso ecológico e pelo avanço da desigualdade social e da pobreza.
Concordando com esse pensamento Morais (2002) observa que: 

Não podemos deixar como herança aos nossos descendentes um planeta de cimento, sem sentimento; um mar de água poluída; um planeta transformado em imensa lixeira; um planeta distante da sua capacidade de suporte. Porque segundo a Hipótese de Gaia, a Terra, enquanto ser vivo em evolução é capaz de tirar de circulação aquela espécie que ameaça a sua continuidade. Salvar a Terra corresponde em salvar a própria espécie Homo Sapiens. 

A transformação da realidade atual somente será possível a partir do momento em que a Educação Ambiental passar a ser efetivada, deixando de ser apenas um tema dos discursos acadêmicos e se transforme numa ferramenta de mudanças. Ela possui um caráter interdisciplinar, que permite aos seres humanos conhecer as leis que regem a natureza, bem como compreender as relações e interações existentes entre eles, os demais seres vivos e o próprio ambiente.
Afirma Tozoni-Reis (2004) que: 

As discussões sobre a Educação Ambiental no mundo contemporâneo estão relacionadas às questões ambientais mais amplas, que têm feito parte das preocupações dos mais variados setores da sociedade. Apesar das diferentes abordagens com que têm sido tratadas essas questões, todas as discussões apontam para a necessidade de políticas públicas de Educação Ambiental. 

Através da Educação Ambiental pode-se construir uma consciência comunitária, mostrando como se viver em acordo com o seu meio ambiente, modificando o comportamento e os hábitos das pessoas, pois ela permitir a compreensão da complexidade do meio ambiente. E, por outro lado, mostra como o ser humano, de forma racional, deve utilizar dos recursos do meio para satisfazer suas necessidades.
Ainda segundo Quintas (2001):  

[...] o esforço da educação ambiental deveria ser direcionado para a compreensão e a busca de superação das causas estruturais dos problemas ambientais por meio da ação coletiva e organizada. Segundo essa percepção, a leitura da problemática ambiental realiza-se sob a ótica da complexidade do meio social e o processo educativo deve pautar-se por uma postura dialógica, problematizadora, comprometida com transformações estruturais da sociedade e de cunho emancipatório. Aqui se acredita que ao participar do processo coletivo de transformação da sociedade a pessoa também se estará transformando. 

Nesse sentido, a Educação Ambiental não somente é vista como uma ferramenta de mudanças, mas como um instrumento construtor da própria consciência humana, capaz de fazer do ser humano um construtor/fiscal de um mundo, no qual nas ações relacionadas ao desenvolvimento econômico, sejam sempre pautadas na sustentabilidade.
Diante desta realidade, entende Meller (1997) que “a Educação Ambiental não deve ser uma disciplina, mas uma expressão relacionada ao campo pedagógico que reflete a interdisciplinaridade de conteúdos de diferentes áreas do conhecimento, devendo permear o currículo escolar como um Tema Transversal”.
Uma das propostas implantada pelo MEC, nos Parâmetros Curriculares Nacionais é que, além de informações e conceitos, a escola e seus professores, se proponham a trabalhar com atitudes, formação de valores, e também o ensino e a aprendizagem de habilidades e procedimentos (BRASIL, 1997).
No Brasil, a Educação Ambiental foi assumida como obrigação constitucional. Assim, considerando que o processo educativo pode contribuir para a superação do quadro atual de degradação da natureza, a escola, enquanto instituição, deve está preparada para incorporar a temática ambiental em seu currículo. Pois, esta “ainda é o lugar mais adequado para trabalhar a relação homem-ambiente-sociedade, sendo um espaço adequado para formar um homem novo, crítico e criativo, com uma nova visão de mundo que supere o antropocentrismo” (MELLER, 1997).
Apesar de alguns avanços, a política federal para a Educação Ambiental ainda carece de maior articulação entre os setores governamentais e não governamentais, para que políticas específicas sejam efetivamente implementadas.
Diante da atual situação, o Brasil está longe de resolver adequadamente a questão ambiental, uma vez que os brasileiros foram deseducados quanto à compreensão dos problemas do Meio Ambiente.
Em síntese, a educação ambiental como uma ação destinada a reformular comportamentos humanos, pode proporcionar a conscientização para a preservação do meio ambiente, por ser “um processo educativo fundamental para garantir um ambiente sadio para todos os homens e todas as formas de vida” (TOZONI-REIS, 2004). 

3 Considerações Finais 

No contexto escolar, a Educação Ambiental possui uma grande importância, apesar de sua introdução ser recente. No entanto, a mesma deve continuar além da escola. Diante desta realidade, vê-se a importância que tal disciplina ocupa na formação do aluno. Pois, ela possibilita uma visão cidadão de vida.
O processo educativo tem que acompanhar a evolução da concepção sobre o papel da escola, suas relações com a sociedade e com a mudança das exigências do mundo. Por isso, a Educação Ambiental não deve ser uma disciplina isolada: ela deve envolver todo o contexto escolar.
Por isso, trabalhar a Educação Ambiental a partir de eixos temáticos, exige do professor pesquisa, trabalho em equipe, criatividade, entre outros atributos. A princípio, isto pode provocar atitudes de medo, insegurança, recusa e, até mesmo, insatisfação e indisponibilidade. No entanto, é um trabalho que precisa ser feito.
Uma missão dessa natureza exige, por parte do professor uma redefinição de seu papel, de sua forma de trabalho. É importante que ele reconheça que a Educação Ambiental é complexa, sendo necessário várias áreas do conhecimento humano para lhe dar o suporte necessário, ou seja, as condições teóricas e metodológicas necessárias à sua efetivação.
A educação ambiental, tratada como tema transversal, deverá ser desenvolvida como uma prática educativa integrada, contínua e permanente. A educação ambiental aponta para propostas pedagógicas centradas na conscientização, mudança de comportamento, desenvolvimento de competências, capacidade de avaliação e participação dos educandos.
A educação ambiental trata de uma mudança de paradigma que implica tanto uma revolução científica quanto política. A educação ambiental, não somente pode educar para a cidadania, como também pode contribuir para a coletividade consciente de seu papel como responsável pela preservação do mundo que habita.Esta, deve considerar o Meio Ambiente em sua totalidade, levando em conta a interdependência entre o meio natural, o socioeconômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade.
Assim, a Educação Ambiental deve promover o desenvolvimento de uma compreensão integrada do Meio Ambiente, em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo todos os aspectos da vida humana.
As dificuldades que se colocam para a Educação Ambiental, enquanto prática dialógica e crítica, são a falta de recursos, alegada pela maioria dos professores da escola pública e as falhas no processo de formação para atuar como educadores ambientais, verificadas pelos professores de ambas as redes de ensino.
Se toda comunidade escolar não se sensibilizar com as questões socioambientais, vivenciadas cotidianamente, não haverá mudança de comportamento. Este é o papel do educador ambiental: sensibilizar as pessoas para que elas interiorizem os seus problemas mais próximos e adotem atitudes para solucioná-los.
No entanto, a Educação Ambiental não é a solução para todos os problemas ambientais, pois estes têm suas raízes em questões econômicas, políticas, dentre outras, e que há conflitos de interesses entre os vários setores envolvidos.
Apesar disso, não se pode negar que a Educação Ambiental se constitui em um movimento ético e histórico de suma importância para a construção de uma consciência ambiental natural e cultural. Desta forma, percebe-se que a dificuldade em se estabelecer uma prática adequada de Educação Ambiental não se limita apenas aos fatores estruturais. 

4 Referências


BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: meio ambiente e saúde. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997. 

FIGUEIREDO, Sandra Araújo. Proposta curricular: educação ambiental. Brasília: MEC, 2004. 

GUIMARÃES, Roberto P. A ética da sustentabilidade e a formulação de políticas de desenvolvimento: Um debate sócio ambiental no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abrano, 2001. 

LEFF, E. Saber Ambiental: Sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. 2 ED. Petrópolis: Vozes, 2002. 

MEDINA, N. Mininni; SANTOS, E. C. Educação ambiental: Uma metodologia participativa de formação. Petrópolis: Vozes, 2000. 

MELLER, C. B. Educação ambiental como possibilidade para superação da fragmentação do trabalho escolar. In: Espaços da Escola, Itajaí, v. 4, n. 26, p. 39-49, 1997. 

MORAIS, Carlos Antônio de. Meio ambiente: questões atuais. São Paulo: Nova Era, 2002. 

QUINTAS, José Silva. Educação ambiental e cidadania: uma construção necessária. In: Ciclo de palestras sobre meio ambiente. Brasília: MEC/SEF, 2001, p. 41-46. 

SOUZA, Geraldo O. C. Cidade, meio ambiente e modernidade. In: SPOSITO, M. E. B. (Org.). Urbanização e cidades: perspectivas geográficas. Presidente Prudente: GASPERR, 2001. p.253-279.

TOZONI-REIS, M. F. C. Educação ambiental: natureza, razão e história. Campinas-SP: Autores Associados, 2004, p. 172. 

VIOLA, Eduardo. O movimento ecológico no Brasil (1974-1986), do ambientalismo à ecopolítica. In: J. Augusto Pádua (org.) Ecologia e política no Brasil. Rio de Janeiro, Ed. Espaço e Tempo. 1987.

 
ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA BRASILEIRA DE EDUCAÇÃO E SAÚDE - REBES (Pombal – PB, Brasil), v. 3, n. 2, p. 28-33 abr.-jun., 2013

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014


BRIQUETES: FORMA ALTERNATIVA DE APROVEITAMENTO DA BIOMASSA RESIDUAL
 

José Ozildo dos Santos
Professor, mestrando
em Sistemas Agroindustriais - UFCG
 

A busca por novas fontes enérgicas se intensificou a partir da década de 1970, que também coincide com a eclosão dos movimentos ambientalistas, que levaram a Organização das Nações Unidas (ONU) a realizar a primeira Conferência Internacional Sobre o Meio Ambiente, sediada em Estocolmo, Suécia.
Foi durante a Conferência de Estocolmo que se enfatizou o conceito de desenvolvimento sustentável, mostrando-se a necessidade de se desenvolver também novas formas de energia, que levassem em consideração os princípios estabelecidos para a esse tipo de desenvolvimento.
Com o passar do tempo, as necessidades em relação ao desenvolvimento de formas alternativas de energia foram aumentado. E diante da escassez de combustíveis fósseis, as chamadas energias renováveis, vegetais e limpas, foram ganhando importância, fazendo com que a sociedade passasse a privilegiar mais o consumo sustentável. Essa preocupação em relação ao desenvolvimento e a utilização de formas alternativas de energia se intensificaram a partir da década de 1970.
Dentre as várias formas alternativas de energia, destacam-se os briquetes, que foram desenvolvidos nos Estados Unidos, pela indústria naval, em 1848. No entanto, na época, tal inovação não alcançou visibilidade, principalmente, devido à grande disponibilidade de lenha e de petróleo.
É importante também ressaltar que naquela época, ou seja, no final da primeira década do século XIX, não havia uma preocupação ambiental. Posteriormente, o elevado preço cobrado pelos combustíveis fósseis e o surgimento dos problemas ambientais, fizeram com que as chamadas matrizes energético-ambientais passassem a desfrutar de certa importância. E, dentre essas matrizes, ganhou destaque o briquete, por vários fatores, dentre os quais, a comodidade com o manuseio e a facilidade de transporte. 
Na produção dos briquetes, os resíduos da biomassa são triturados e num segundo momento, compactados, sob alta pressão, resultando em blocos que possuem melhor potencial de geração de calor (energia) quando comparados aos resíduos in natura.  Nesse processo de produção, tudo que é considerado biomassa residual pode ser aproveitado.
Nesse processo de produção, podem ser utilizado serragem e restos de serraria, casca de arroz, sabugo e palha de milho, palha e bagaço de cana-de-açúcar, casca de algodão, casca de café, soqueira de algodão, feno ou excesso de biomassa de gramíneas forrageiras, cascas de frutas, cascas e caroços de palmáceas, folhas e troncos das podas de árvores nas cidades, dentre outros.
Assim, na produção de briquetes, nada que é biomassa residual se perde: tudo é aproveitado. Tais resíduos são compactados gerando pequenos e médios cilindros com diâmetro superior a 50 mm, que possuem alto poder calorífero e que em diversos segmentos da indústria e do comércio, já vem sendo utilizados em substituição à lenha e ao carvão, contribuindo, assim, para a redução dos impactos ambientais.
No caso específico do Brasil, a produção de briquetes teve início em 1985, tendo sido o estado do Rio Grande do Sul o responsável pela venda dos primeiros briquetes no país. No início do processo de produção e comercialização desse biocombustível no Brasil, surgiram vários obstáculos, dentre os quais merecem destaques a ausência de promoção, a concorrência com a lenha e o carvão vegetal, a desuniformidade do produto, a necessidade de capital de giro, o alto preço do frete da matéria-prima e os impostos elevados.
Os desafios enfrentados pelos setores produtores de briquetes no Brasil foram resultantes, principalmente, pela falta de incentivo por parte do governo federal, que se traduz na falta de custeio e na inexistência de uma política tributária especifica. Além de enfrentarem a falta incentivos, que deveriam ser fornecidos pelo governo, os primeiros produtores de briquetes no país tinham dificuldades em venderem seus produtos, porque os mesmos possuíam preço elevados, reflexos da alta tributação e enfrentavam a forte concorrência que vinha daqueles que comercializavam lenha e carvão vegetal. 
Entretanto, com o tempo e com a adoção de práticas sustentáveis e do aumento pela busca por novas fontes alternativas de energia, o mercado se abriu para os briquetes no Brasil, o que levou ao desenvolvimento de inúmeras pesquisas sobre tal alternativa sustentável. Atualmente, produz-se briquetes a partir de bagaço de cana, casca de arroz, lenha comercial, resíduos de algodão, resíduos de eucalipto, resíduos de pinus e resíduos madeira de lei. A utilização de outros compostos está sendo estudada, objetivando a produção de briquetes, principalmente, utilizando-se a biomassa residual existente na região norte do país.
Atualmente, os briquetes possuem larga utilização não somente em unidades residenciais como também em estabelecimentos comerciais e na própria indústria, substituindo o gás natural e a lenha, produzindo calor e energia.
É importante registrar que as atividades agrícolas, florestais e industriais no Brasil geram uma grande quantidade de biomassa residual. Lamentavelmente, esse potencial ainda não vem sendo utilizado da maneira correta. Grande parte dessa biomassa residual é desperdiçada e com ela a energia que poderia ser produzida, deixando de auxiliar no processo de preservação do meio ambiente ou mesmo de contribuir para estruturação de um modelo energético, que leva em consideração os princípios aplicáveis à sustentabilidade ambiental.
Embora seja responsável pela produção de uma grande quantidade de biomassa residual, o Brasil somente utiliza uma pequena parcela desse material na produção de briquetes. Pouco mais de um milhão de toneladas de briquetes são produzidas por ano no país, utilizando-se, principalmente, resíduos agrícolas. Os resíduos de alimentos, provenientes da fabricação de alguns produtos, bem com pelo beneficiamento dos próprios alimentos, ainda não são utilizados também em grande escala na produção de briquetes, no Brasil.
Pode-se perceber que a falta de incentivos e de ações governamentais voltadas para a valorização da produção de briquetes no país, tem contribuído para que uma imensa quantidade de biomassa residual seja desperdiçada anual. A necessidade de se buscar formas alternativas de energia é uma realidade patente. Por outro lado, a sociedade precisa ser informada sobre o processo de desenvolvimento dessas novas alternativas e convocada para dar a sua contribuição, na esperança de que no futuro se tenha um mundo com melhores condições de vida, proporcionadas, principalmente, pela exploração racional e consciente dos recursos naturais, numa ótica sustentável.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

DISCURSO DO MÉTODO
(RESUMO)


Identificação da obra: DESCARTES, René. Discurso do método. Tradução: Ciro Mioranza. São Paulo: Escala, 2006.


Inexiste no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem.
Meu propósito não é ensinar aqui o método que cada qual deve seguir para bem conduzir sua razão, mas somente mostrar de que modo me esforcei por conduzir a minha. Nada direi a respeito da filosofia, exceto que, vendo que foi cultivada pelos mais elevados espíritos que viveram desde muitos séculos e que, apesar disso, nela ainda não se encontra uma única coisa a respeito da qual não haja discussão, e consequentemente que não seja duvidosa.
Após dedicar-me por alguns anos em estudar assim no livro do mundo, e em procurar adquirir alguma experiência, tomei um dia a decisão de estudar também a mim próprio e de empregar todas as forças de meu espírito na escolha dos caminhos que iria seguir [...] Acreditei com firmeza em que, por este meio, conseguiria conduzir minha vida muito melhor do que se a construísse apenas sobre velhos alicerces e me apoiasse tão somente sobre princípios a respeito dos quais me deixara convencer em minha juventude, sem ter nunca analisado se eram verdadeiros.
Em lugar do grande número de preceitos de que se compõe a lógica, achei que me seriam suficientes os quatro seguintes, uma vez que tornasse a firme e inalterável resolução de não deixar uma só vez de observá-los. O primeiro era o de nunca aceitar algo como verdadeiro que eu não conhecesse claramente como tal [...]. O segundo, o de repartir cada uma das dificuldades que eu analisasse em tantas parcelas quantas fossem possíveis e necessárias a fim de melhor solucioná-las. O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, iniciando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para elevar-me, pouco a pouco, como galgando degraus, até o conhecimento dos mais compostos [...]. E o último, o de efetuar em toda parte relações metódicas tão completas e revisões tão gerais nas quais eu tivesse a certeza de nada omitir.
Depois, havendo percebido que, a fim de conhecê-las, ser-me-ia algumas vezes necessário considerá-las cada qual em particular, e outras vezes apenas de reter, ou de compreender, várias em conjunto, julguei que, para melhor considerá-las em particular, deveria presumi-las em linhas, visto que não encontraria nada mais simples, nem que pudesse representar mais diferentemente à minha imaginação e aos meus sentidos; mas que, para reter, ou compreender, várias em conjunto, era necessário que eu as designasse por alguns signos, os mais breves possíveis, e que, por esse meio, tomaria de empréstimo o melhor da análise geométrica e da álgebra, e corrigiria todos os defeitos de uma pela outra.
No entanto, o que mais me satisfazia nesse método era o fato de que, por ele, tinha certeza de usar em tudo minha razão, se não à perfeição, ao menos o melhor que eu pudesse.
Concebi para mim mesmo uma moral provisória, que consistia apenas em três ou quatro máximas que eu quero vos anunciar. A primeira era obedecer às leis e aos costumes de meu país, mantendo-me na religião na qual Deus me concedera a graça de ser instruído a partir da infância, e conduzindo-me, em tudo o mais, de acordo com as opiniões mais moderadas e as mais distantes do excesso, que fossem comumente aceitas pelos mais sensatos daqueles com os quais teria de conviver.  Minha segunda máxima consistia em ser o mais firme e decidido possível em minhas ações [...]. Minha terceira máxima era a de procurar sempre antes vencer a mim próprio do que ao destino, e de antes modificar os meus desejos do que a ordem do mundo [...]. Depois de haver-me assim assegurado destas máximas, e de tê-las separado, com as verdades da fé, que sempre foram as primeiras na minha crença, julguei que, quanto a todo o restante de minhas opiniões, podia livremente procurar desfazer-me delas.
Porém, logo em seguida, percebi que, ao mesmo tempo que eu queria pensar que tudo era falso, fazia-se necessário que eu, que pensava, fosse alguma coisa. E, ao notar que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão sólida e tão correta que as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de lhe causar abalo, julguei que podia considerá-la, sem escrúpulo algum, o primeiro princípio da filosofia que eu procurava.
Depois disso, considerei o que é necessário a uma proposição para ser verdadeira e correta; pois, já que encontrara uma que eu sabia ser exatamente assim, pensei que devia saber também em que consiste essa certeza. E, ao perceber que nada há no eu penso, logo existo, que me dê a certeza de que digo a verdade, salvo que vejo muito claramente que, para pensar, é preciso existir, concluí que poderia tomar por regra geral que as coisas que concebemos muito clara e distintamente são todas verdadeiras, havendo somente alguma dificuldade em notar bem quais são as que concebemos distintamente.
Em princípio, aquilo mesmo que há pouco tomei como regra, ou seja, que as coisas que concebemos bastante evidente e distintamente são todas verdadeiras, não é correto a não ser porque Deus é ou existe, e é um ser perfeito, e porque tudo o que existe em nós se origina dele. De onde se conclui que as nossas ideias ou noções, por serem coisas reais e oriundas de Deus em tudo em que são evidentes e distintas, só podem por isso ser verdadeiras.
Atrevo-me a afirmar que não apenas encontrei modo de me satisfazer em pouco tempo no tocante a todas as mais importantes dificuldades que costumam ser enfrentadas na filosofia, mas também que percebi certas leis que Deus estabeleceu de tal modo na natureza, e das quais imprimiu tais noções em nossas almas que, após meditar bastante acerca delas, não poderíamos pôr em dúvida que não fossem exatamente observadas em tudo o que existe ou se faz no mundo. Em seguida, atentando para a sequência dessas leis, creio haver descoberto muitas verdades mais úteis e mais importantes do que tudo quanto aprendera até então, ou mesmo esperava aprender.
Em princípio, procurei encontrar os princípios, ou causas primeiras, de tudo quanto existe, ou pode existir, no mundo, sem nada considerar, para tal efeito, senão Deus, que o criou, nem tirá-las de outra parte, salvo de certas sementes de verdades que existem naturalmente em nossas almas. Em seguida, examinei quais são os primeiros e os mais comuns efeitos que se podem deduzir dessas causas [...]. Quero que se saiba que o pouco que aprendi até agora não é quase nada em comparação com o que ignoro, e que não desanimo de poder aprender [...].
Ademais, não pretendo falar aqui a respeito dos progressos que no futuro espero fazer nas ciências, nem me comprometer em relação ao público com qualquer promessa que eu não esteja seguro de cumprir: mas direi unicamente que decidi não empregar o tempo de vida que me resta em outra coisa que não seja tentar adquirir algum conhecimento da natureza [...]. 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

ARQUEOLOGIA E EDUCAÇÃO

José Ozildo dos Santos
Rosélia Maria de Sousa Santos

Embora seja uma ciência relativamente nova, quando comparada com outras, a Arqueologia vem vivendo uma nova era, oportunidade em que vários de seus conceitos estão sendo redefinidos.
Em várias partes do mundo, importantes acervos arqueológicos estão sendo destruídos numa escala alarmante, colocando em risco grande parte da história da humanidade que ainda não foi desvendada.
Esta situação mostra a necessidade urgente da adoção de medidas, que possam reduzir as ações inconscientes do homem, geralmente, praticadas em nome do desenvolvimento econômico.
Se por um lado os ambientalistas alertam que o planeta está sendo destruído, os arqueólogos encontram-se nessa mesma posição e denunciam a destruição de inúmeras áreas contendo sítios arqueológicos – verdadeiros patrimônios da humanidade.
Numa maior escala do que as depredações promovidas durante o século XIX pelos aventureiros europeus em busca de riquezas, no norte da África, mais precisamente no Egito, atualmente ocorre depredações em várias partes do globo, colocando a Arqueologia em sinal de alerta.
Mais do que nunca é necessário o desenvolvimento de ações voltadas para a conservação dos patrimônios arqueológicos espalhados pelo mundo inteiro. Diante das inúmeras perdas registradas nas últimas décadas, é necessário se enfrentar o problema de frente e cortar o mal pela raiz. Somente a educação como processo de construção e formação do cidadão consciente, pode constituir-se numa medida eficaz a esse problema.
No caso específico dos sítios arqueológicos existentes no interior da Paraíba, a falta de conservação é um problema que vem aumentando e exige uma solução imediata. Vários matações contendo pinturas e gravuras já foram [e estão sendo] reduzidos a simples blocos de paralelepípedos. As famosas Itacoatiaras do Ingá - consideradas o maior e mais completo conjunto de gravuras rupestres existente no solo brasileiro - estão desparecendo por falta de ações governamentais, que garantam sua preservação, bem como pelas ações irracionais de alguns pseudos turistas, que visitam aquele importante sítio arqueológico.
Trata-se de um problema antigo, denunciado no final da década de 1940 por José Anthero Pereira Júnior e atualmente sempre enfatizado pela Sociedade Paraibana de Arqueologia, através da mídia ou em seminários e congressos, realizados dentro e fora do território paraibano.

 CACHOEIRA DO ENCANTADO, BAHIA: depredação de um patrimônio ainda pouco conhecido e estudado

No início da década de 1980, pesquisadores norte-americanos denunciaram a destruição pela qual vinham passados os sítios arqueológicos dos Estados Unidos. O problema, que à época encontrava-se fora de controle, foi combatido através de um conjunto de ações públicas e privadas, associadas a publicações de várias leis estaduais, voltadas para a proteção de tais áreas.
Na época, estabeleceu-se que a proteção e a conservação dos sítios arqueológicos situados em terras federais eram da responsabilidade do governo federal dos Estados Unidos. E, graças às leis promulgadas naquele país, milhares de sítios arqueológicos estão protegidos.
No caso específico do Brasil, apesar do texto constitucional garantir a preservação dos sítios arqueológicos e considerá-los como patrimônios da União, a grande parte desses sítios está localizada em áreas aonde o próprio governo federal vem desenvolvendo ou custeando projetos, sem, contudo, avaliar os impactos que tais ações podem causar aos acervos arqueológicos locais.
Todas as formas de desenvolvimento produzem impactos sobre os sítios arqueológicos.
No Brasil, literalmente, nada existe para proteger as áreas consideradas de interesse para a Arqueologia e que se encontrem no caminho do chamado 'desenvolvimento'. E isto mostra a necessidade de um plano nacional de gestão arqueológica.
É de suma importância que nossos sítios arqueológicos sejam preservados e deles sejam afastadas as ameaças trazidas pelo desenvolvimento, salvaguardando, assim, grande parte da pré-história do homem brasileiro.
Enquanto que recursos financeiros não são direcionados para promover a proteção e a preservação dos sítios arqueológicos brasileiros, deve-se privilegiar a Educação Patrimonial em vários aspectos, tanto através da mídia como em sala de aula, e mais, tanto no campo como na cidade.
Os sítios arqueológicos devem ser sempre vistos como instrumentos de valor e de interesse público. No desenvolvimento de um projeto de Educação Patrimonial voltado para a proteção de nossos sítios arqueológicos, pode-se privilegiar a Arqueologia de Marketing, buscando-se, através de instituições, a exemplo da Sociedade Brasileira de Arqueologia e suas congêneres estaduais, recursos necessários ao desenvolvimento de tais ações educativas.
Ademais, da mesma forma que o discurso ambiental ganhou os diferentes espaços da sociedade, esforços sejam desenvolvidos para que o mesmo também ocorra em relação à proteção e à preservação de nossos sítios arqueológicos. No entanto, em ambos os casos, as ações têm que ir além dos discursos: É PRECISO CONSCIENTIZAR PARA PRESERVAR. E mais, a sociedade também precisa ser educada, conscientizando-se da importância que os sítios arqueológicos representam no processo de revelação do passado do homem e, que jamais tais espaços devem ser vistos como pedras no caminho do desenvolvimento.